Como evitar a
catástrofe climática?
Fev/2007
Falta incluir, no debate sobre o aquecimento da
Terra, um dado essencial. As energias limpas já são uma
alternativa viável. A humanidade só permanece refém dos combustíveis
fósseis e nucleares porque a mudança de paradigma ameaça os interesses
de mega-corporações
Hermann Scheer
No que diz respeito às fontes
mundial de energia, há boas e más notícias. As más? O petróleo acabará.
As boas? O petróleo acabará. E não somente ele: cedo ou tarde, todas as
energias fósseis terão o mesmo destino — até mesmo o urânio que alimenta
as centrais nucleares.
Disponível na forma liquida, fácil
de utilizar, o petróleo tornou-se a energia mais comum, "o ouro negro"
do século 20. Mas sempre foi evidente que se esgotaria um dia. Como
ninguém sabia exatamente quando, o problema foi deixado de lado. O clima
alarmista que reina entre os chefes de Estado mostra que administravam a
questão no dia-a-dia, enquanto crescia a dependência a esse recurso em
declínio.
Na verdade, a questão de saber
quanto tempo ainda irão durar as reservas não está entre as primeiras
preocupações, porque, antes que se esgotem os recursos disponíveis, o
mundo "civilizado" terá atingido um nível insuportável de destruição
ambiental. Se acreditarmos nos resultados das pesquisas do Grupo
Intergovernamental sobre a evolução do clima (GIEC), seria necessário
reduzir ao menos 60% das emissões de gás responsável pelo aquecimento da
atmosfera terrestre até o ano 2050, para evitar um enorme colapso
econômico e ecológico.
A segunda questão diz respeito às
conseqüências do aumento dos preços da energia, tanto para a economia
mundial como para as economias nacionais. Esta alta contínua é provocada
por diversos fatores. A era do petróleo fácil de extrair (petróleo
convencional) está encerrada, o que explica a busca de energias fósseis
não convencionais. Mas elas são insuficientes para satisfazer ao aumento
do consumo de combustíveis, provocado pelo desenvolvimento de países
como a China e pela multiplicação de deslocamentos no planeta. E o custo
da infra-estrutura necessária para extração eleva-se cada vez mais, à
medida em que se torna necessário explorar os últimos recursos
existentes.
Diante da ameaça climática,
retórica e covardia
As incertezas políticas constituem
um quarto fator. Em um mundo cada vez mais instável política, econômica,
cultural e socialmente — devido, entre outras razões, à liberalização
dogmática — estas crises têm todas as probabilidades de se agravar. O
principal desafio logístico é fornecer continuamente petróleo, gás e
urânio, para o mundo inteiro, a partir de alguns lugares e países
produtores, utilizando importantes redes de transporte. Esta
vulnerabilidade provoca um aumento dos custos políticos e militares com
segurança — por exemplo, para proteger os meios e os centros de
fornecimento dos ataques terroristas.
Os custos crescentes tornam a
armadilha energética cada vez mais perigosa. Os países em
desenvolvimento sofrem um golpe dramático por serem obrigados a pagar os
preços do mercado mundial. Em muitos casos, as importações de produtos
energéticos absorvem toda a receita das exportações. Em 2005, o custo do
petróleo, para tais nações, aumentou em 100 bilhões de dólares, o que
representa muito mais que o conjunto da ajuda ao desenvolvimento
oferecida por todas as nações industrializadas. Enquanto isso, os ganhos
das grandes corporações petroleiras aumentaram de maneira astronômica:
em 2005, a Exxon teve um lucro de 35 bilhões de dólares; a Shell, de 25
bilhões; a British Petroleum (BP) 22 bilhões...
Muito antes dos recursos estarem
realmente esgotados, convém ressaltar o estado precário e calamitoso do
sistema mundial de fornecimento de energia primária. As iniciativas
tomadas na reunião do G8 em São Petesburgo, em julho de 2006 foram uma
tentativa de solucionar essas crises. Esforços ilusórios: o recurso, no
mundo inteiro, à energia nuclear e ao "carvão limpo", para produzir
eletricidade, parte do princípio de que o sistema energético mundial
poderia permanecer o mesmo, caso não houvesse o impacto das emissões de
gases responsáveis pelo efeito estufa e a mudança do clima.
Crescem as pressões junto aos
países fornecedores, para que aumentem sua produção, e para que as redes
internacionais de fornecimento sejam reforçadas, em total contradição
com os objetivos de proteção da natureza e do clima. Apresentadas
retoricamente como saída, as energias renováveis, são, na prática,
consideradas apenas marginalmente. Há muito tempo deveriam ter se
transformado numa prioridade estratégica absoluta.
Os insustentáveis argumentos
contra a energia limpa
Alega-se que o potencial das
energias “renováveis” não é suficiente para substituir as energias
nucleares e fósseis, e que seria oneroso desenvolvê-las em grande
escala. Afirma-se que a mudança levaria muito tempo — o que equivale a
manter, por décadas, a matriz energética atual. Sugere-se, por fim, que
o problema de estocagem das energias renováveis ainda não foi resolvido.
Nenhum dos argumentos acima, se bem analisado, é convincente. O
potencial das energias renováveis é astronômico. A utilização direta ou
indireta da energia solar, do vento, da água, da biomassa e das ondas
hoje desperdiçada — sob a forma de vento não captado, de calor solar não
recuperado etc. –- forneceria um volume de energia 15 mil vezes superior
à consumida pela a humanidade. Uma usina eólica pode ser instalada em
uma semana, enquanto uma central térmica clássica requer entre cinco a
quinze anos. Já existem soluções para corrigir a intermitência de
elementos geradores como a luz solar e os ventos.
As possibilidades de ampliar
rapidamente a participação das energias renováveis na matriz energética,
até constituir sistemas totalmente limpos foram expostas em diversas
ocasiões: desde 1978, o grupo de Bellevue
desenvolveu cenários para a França. Nos EUA, a Union of Concerned
Scientists faria o mesmo para os Estados Unidos.
Na Alemanha, a prova dos nove: é
possível mudar a matriz
Os únicos custos diretamente
ligados à produção de energias renováveis são os do desenvolvimento
tecnológico. Os custos dos combustíveis seriam eliminados – exceto no
caso da biomassa, já que o trabalho agrícola e florestal deve ser
remunerado. Os custos dos equipamentos diminuirão com o desenvolvimento
da produção em grande escala e a melhora contínua das tecnologias.
Enquanto isso, os preços da energia convencional tendem a aumentar
constantemente.
Ao mesmo tempo, as energias
renováveis oferecem vantagens políticas e econômicas significativas. A
importações de energias fósseis é substituída por fontes permanentes, e
disponíveis em todos os locais. Reforça-se a segurança energética, com
impacto positivo na balança de pagamentos. Novo impulso às estruturas
econômicas regionais baseadas na agricultura e nas trocas. A necessidade
de infra-estruturas será amplamente reduzida. Tudo isso sem falar dos
graves danos ao meio ambiente e à saúde que seriam evitados. Quanto mais
diminuir o uso de energias convencionais, mais importantes serão os
efeitos.
Utópico? Irrealista? A lei alemã
sobre energias renováveis, adotada na primavera de 2000, demonstra o
contrário. Os estímulos oferecidos asseguraram, desde o ano 2000, um
aumento anual de 3.000 MW na capacidade de produção de eletricidade
através de fontes de energias renováveis. O acréscimo total supera
18.000 MW. Um aspecto importante da lei é proporcionar, a cada produtor
de energia renovável, acesso à rede nacional de distribuição e tarifa
assegurada por 20 anos — o que garante o retorno dos investimentos. Os
custos do incentivo são repartidos entre todos os consumidores, e não
passam de 5 euros por pessoa a cada um ano.
O
novo setor industrial já criou 170 mil empregos.
Nenhum programa político de apoio à industria custou tão pouco e
alcançou tantos resultados em tão pouco tempo! E se o público aceita os
custos suplementares é porque está de acordo com o objetivo a ser
seguido. Em seis anos, os custos de investimento caíram 40%, graças ao
aumento de escala na produção. Essa mudança energética diminuiu as
emissões de CO2 em 7 milhões de toneladas adicionais a cada ano. Ou
seja: a lei, enquanto instrumento da política ambiental, teve muito mais
efeito do que o mercado de quotas de emissão de CO2, um dos instrumentos
criados pelo protocolo de Kioto. E tudo isso foi obtido sem necessidade
de burocracias.
Se o processo continuar no mesmo
ritmo, a produção de eletricidade de origem nuclear e fóssil terá sido
inteiramente substituída em aproximadamente 40 anos. Os custos
adicionais diminuirão, inclusive devido do aumento dos preços das
energias convencionais. Mesmo antes do ano 2020, o preço da eletricidade
renovável será menor que o da eletricidade gerada nas novas centrais
nucleares e térmicas, acelerando ainda mais a transição energética.
Por que a mudança energética
assusta as corporações
Um
potencial de substituição similar existe no terreno do aquecimento.
Graças às fontes renováveis, já existem residências auto-suficientes em
energia, e brevemente haverá arranha-céus.
O montante dos investimentos é compensado, em dez ou vinte anos, pela
economia de combustíveis alcançada. O desenvolvimento de carros híbridos
deve permitir igualmente substituir os combustíveis fósseis por biocarburantes e motores elétricos, utilizando novas tecnologias de
bateria.
A possibilidade de caminharmos para
um mundo pós–fóssil e pós-nuclear não é vista como viável. Ao contrário,
é constantemente negada. Nosso sistema superado, com suas estruturas de
empresas associadas, é tido como eterno. Tem-se como definitivo que ele
é tecnicamente neutro, em relação às outras fontes de energia — cujos
custos são vistos de maneira isolada, quando seria necessário comparar
sistemas energéticos em sua totalidade. Essa visão mostra completa falta
de conhecimentos sobre tecnologias de produção de energia.
A escolha da fonte primária de
energia determina o esforço político, econômico e tecnológico necessário
para sua extração, transformação, transporte e distribuição — sem
esquecer as tecnologias de utilização. É evidente que a mudança para as
energias renováveis — portanto, para fluxos energéticos totalmente
diferentes — muda tudo.
Supõe passar de energias primárias
comerciais a fontes não comerciais; de poucas usinas e refinarias a um
maior número de unidades de pequeno e médio porte; de infra-estruturas
internacionais, a estruturas regionais; de energias poluidoras a
energias limpas que não emitam gases de efeito estufa. Enfim, significa
passar das estruturas concentradas, como grandes empresas e
propriedades, a formas de organização mais diversificadas. A mudança
sistêmica em matéria de fornecimento energético representa uma mudança
de paradigma em termos tecnológicos, econômicos e políticos. É aí, na
verdade, que está o nó da questão.
Tradução:
Celeste Marcondes
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