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Lixos,
condomínios e estradas destroem os corredores ecológicos e ameaçam os
únicos refúgios de espécies da região, que hoje abriga apenas 27% da
vegetação nativa. Animais e flora estão confinados
Érica
Montenegro
Da equipe do correio
Publicado
no Correio Brasiliense-18/05/03
...Porque
esta vida é embrejada. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir
e desmisturar. A sem-vergonhice reina, tão leve e leve pertencidamente,
que por primeiro não se crê no sincero sem maldade...O diabo não há.
Existe é homem humano.
Riobaldo,
personagem principal de Grande Sertão: Veredas, a obra-prima de Guimarães
Rosa
Riobaldo
é mais velho do que Brasília. Ganhou voz quatro anos antes da mudança da
capital, foi em 1956, quando Guimarães Rosa eternizou a prosa poética do
caboclo nas páginas de Grande Sertões: Veredas. Já naquela época, sem
soja, sem palácios, o segundo maior ecossistema brasileiro sofria. Riobaldo
reclamava do sumiço dos bichos, da derrubada do arvoredo, da cobiça cega
da política. Imagine se visse o cenário de hoje.
Animais e plantas do cerrado vivem em Brasília como se náufragos fossem.
As três principais unidades de conservação do Distrito Federal — Parque
Nacional, Estação Águas Emendadas e Área de Proteção Ambiental
Gama/Cabeça-de-Veado — estão se tornando ilhas inóspitas onde a fauna e
a flora tentam resistir às ameaças de extinção.
O bicho homem, com seus condomínios, lixos e carros, rouba a liberdade de
ir e vir de mamíferos, répteis, insetos e pássaros. Impede, ainda, as
trocas genéticas entre as plantas. No quinto capítulo da série sobre o
cerrado, o Correio Braziliense explica como a ocupação desordenada do solo
está aniquilando os corredores ecológicos — trilhas essenciais para a
manutenção da qualidade dos rios e a sobrevivência das espécies,
inclusive dos homens que bebem a água que os homens poluem.
Quatro décadas depois da inauguração da capital da República, sobrou
dentro o quadrilátero do Distrito Federal apenas 27% da cobertura original
de cerrado. A informação consta do relatório Vegetação no DF: Tempo e
Espaço, publicado pela Unesco.
A derrubada de campos, veredas e matas de galeria e a poluição dos
córregos afugentou os animais nativos. As espécies que restaram estão
confinadas aos 50,5 mil hectares que compreendem as três unidades de
conservação onde ainda há vegetação. A pressão do homem sobre esses
espaços segue exterminando a vida selvagem. ‘‘Estamos cercados de
problemas por todos os lados’’, reconhece o diretor do Parque Nacional
de Brasília, Elmo Monteiro.
Criado em 1961, o Parque Nacional está ladeado por ocupações irregulares
que vão desde a cidade Estrutural, com 20 mil habitantes vivendo sem
saneamento básico, aos condomínios de classe média da periferia de
Sobradinho e do Lago Oeste. O parque também é vizinho do lixão
brasiliense, que recebe em média 1.300 toneladas de material orgânico e
inorgânico por dia.
Animais domésticos, como gatos e cachorros vira-latas, e típicos de áreas
degradadas, como urubus e ratos, viraram competidores e predadores da fauna
selvagem que habita o lugar. Tantos problemas levaram a organização
internacional WWF a classificar o Parque Nacional como uma reserva de alta
vulnerabilidade.
Ambientes
fragmentados
A moderna teoria de conservação ambiental reza que a vida das espécies
nativas depende da existência de corredores ecológicos. Nada mais nada
menos do que estradas usadas pelos animais, os corredores permitem que os
animais e a carga genética das plantas passem de um lugar a outro, explica
o professor de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB),
Cláudio Pádua. ‘‘Os ambientes naturais estão fragmentados por causa
da ocupação humana’’, observa.
A regra genética da consangüinidade vale para todos os seres viventes.
‘‘Como parentes que se casam entre si, a probabilidade de doenças
genéticas aumenta quando plantas e animais estão confinados em uma unidade
de conservação’’, aponta a geóloga Mônica Veríssimo, da UnB.
As invasões, sejam de gente pobre ou de gente rica, e as lavouras
agrícolas cercaram as áreas protegidas. Dentro da APA Gama/Cabeça de
Veado, o parcelamento dos lotes do Park Way e a ocupação das áreas
próximas ao Jardim Botânico impedem o vaivém das espécies. O problema é
ainda maior em Águas Emendadas.
A estação ecológica faz fronteira com condomínios, fazendas e, também,
com uma faculdade. ‘‘Não é coisa de ecologista xiita. Em pouco mais de
40 anos, as zonas de amortecimento e os corredores ecológicos foram
praticamente destruídos. Como será daqui a 400 anos?’’, pergunta a
professora Mônica Veríssimo.
Retrato dos vilões
Lixão
(foto 1) – Do lado sul, o Parque Nacional de Brasília faz fronteira com o
lixão. Do lado norte, com o Lago Oeste. O único corredor ecológico que
restou às espécies está do lado noroeste do parque. É a Chapada da
Contagem, por onde chegam antas, lobos-guarás, veados-campeiros e
tamanduás-bandeiras. Pelas leis ambientais, o raio de 10km ao redor das
unidades de conservação deve ser destinado às zonas de amortecimento.
Até aqui a determinação não vem sendo cumprida.
Cascalheira
(foto 2)– O solo argiloso do Distrito Federal tem sido explorado como mina
para a retirada de cascalho. A atividade destrói a vegetação nativa que,
originalmente, teria a função de proteger o terreno da erosão. O dano
seguinte é o assoreamento de riachos e córregos. Localizada na fronteira
norte do parque, essa cascalheira contribui para a redução do volume de
água da Bacia do Paranoá.
Publicado
no Correio Brasiliense-18/05/03
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